segunda-feira, 14 de março de 2016

NA ALMA FAMILIAR EXISTE UM LUGAR PARA OS ABORTADOS



Por Mazé Fontes (*)
Desde que nascemos caminhamos por um campo aberto da existência. Fazemos uma longa ou curta caminhada. A vida  põe á nossa disposição um  mapa completo onde  encontramos    caminhos, roteiros, regras a seguir e até mistérios a decifrar. Resta-nos fazer opções na trilha que  escolhemos percorrer onde há sinais deixados por quem antes passou pela vida. Nossos pais e antepassados. Somos passageiros do destino carregando na bagagem informações e memórias de nossas nascentes. Na jornada da vida nada se perde. Tudo nos acompanha. E aí reside o mistério e a perfeição. Tudo é perfeito do jeito que é.
A teoria das constelações sistêmicas, terapia criada pelo psicoterapeuta alemão Bert Hellinger, afirma que cada um de nós não é apenas uma pessoa. Somos um sistema. Chegamos ao mundo através de uma família, de um casal,  que nos gerou. Fazemos parte dessa família para sempre. Desde a concepção temos direito ao pertencimento, ao abrigo na alma familiar. Os vivos, os mortos e os abortados fazem parte do sistema com igual direito, nem mais nem menos.
O principio ao pertencimento, que nunca finda, garante que ninguém pode ser excluído da família.  Chega para todos como uma dadiva da alma familiar. É um direito conferido pela vida na concepção, quando o ovulo e o espermatozoide, a serviço da vida, geram um novo ser. Por causa disso, os filhos abortados também fazem parte do sistema familiar com igual direto de pertencer. A alma familiar   zela por eles. E, mesmo que não sejam reconhecidos ou lembrados, fazem parte da memoria do campo de vida da família.
A alma familiar é uma consciência que se instala no campo comum do sistema familiar (onde tudo está contido) e cuida pelo equilíbrio no clã.  É aquela energia imaterial, sem rosto nem forma, que nos põe em comum união com todos desde a concepção. Esta instancia nos iguala e une. É ela que nos faz coautores de um destino comum.
Em razão da concepção e do nascimento ocupamos um lugar único na ordem do sistema familiar. Esse lugar é intransferível e insubstituível, pertence àquela pessoa, também para sempre. Cada pessoa que chega ao sistema passa a fazer parte dele dentro de uma hierarquia onde desempenha papeis vinculados a esse lugar. A pessoa será então o primogênito, o filho do meio, a caçula etc. Os papeis desempenhados na hierarquia familiar e as habilidades aprendidas neles viram modelos para as vivencias que passa a fazer no mundo.
Na hierarquia do clã ninguém pode tomar o lugar do outro. A ordem é sempre dos mais antigos para os mais novos. Não se pode inverter esta ordem.  Se alguém ocupa um lugar, que não é o seu, confusão e sofrimento  surgem no sistema familiar da pessoa.  Isto é, por lealdade inconsciente, alguém retoma e revive também inconscientemente o destino de alguém que veio antes. A isto se chama emaranhamento e  significa que os mais novos não devem tomar a si o lugar e as dores dos mais antigos.
Em síntese, é muito importante entender que, quando a primeira concepção de um casal, ou outra,  termina em aborto (natural ou provocado) o filho que nasce na gestação seguinte, não pode nem dever ganhar o direito de ocupar este lugar. Ao contrario do que costuma acontecer ele não é o mais velho. Nem o primogênito. Ele é o segundo, o terceiro, o quarto, etc., dependendo da ordem do parto ou nascimento.
O desrespeito à hierarquia gera algumas implicações indesejadas. Se o aborto virou um segredo familiar, se ninguém diz que existiu,  este segredo  gera sofrimento na primeira geração e vira destino nas outras, uma vez que todos estão fora do seu lugar geracional. O resultado é que todos, de algum modo, passam a vida procurando seu lugar no mundo. Em geral, na infância apresentam comportamento inquieto, não obedecem, brigam por qualquer coisa. Quando adultos, seu lugar original, segundo ou terceiro, não esta disponível para ele. Mantém a sensação de que ”aqui não é o meu lugar”. “Isso não é pra mim”. Os filhos de pessoas, também fora de lugar, por lealdade invisível poderão passar pelo mesmo sofrimento do pai ou da mãe. Além disso, as pessoas que estão fora de seu lugar tendem a manifestar lealdade invisível ao irmão abortado e querer se juntar a ele na morte. Em função disso, às vezes, passam a viver situações de risco.
O que a constelação sistêmica recomenda é que a hierarquia seja observada e respeitada. Acabar com o segredo. Se houve aborto na família isto deve ser falado. O silencio e a tentativa de esquecimento caracteriza uma exclusão.  A exclusão mutila a totalidade e o fluir da vida. Gera uma força de morte. A harmonia do sistema exige a opção pela vida, a inclusão do filho abortado no coração. Uma das formas de incluir é falar do filho abortado a quem veio depois informado sobre o seu lugar  de pertencimento na família.
Isso deve ser feito para que cada um se sinta pertencendo, no seu  lugar, no trabalho, nas parcerias, nas amizades, no amor e na vida.  Ocupar o lugar na hierarquia do sistema nos põe em sintonia com o fluir da vida e com o destino. Como ensina Bert Hellinger: ``Somente quando estamos em sintonia com o nosso destino, com os nossos pais, com a nossa origem e tomamos nosso lugar. Temos a Força."
Se for difícil  fazer isso procure um constelador (a). Constele. A constelação vai mostrar o que resulta melhor para esta questão porque as constelações sistêmicas conseguem desvendar dinâmicas ocultas dos sistemas, os enigmas e o porquê dos destinos que estão sinalizando coisas no mapa de sua existência.
(*) Assistente Social; Numeróloga e Terapeuta de Constelação Sistêmica                                                                                                 




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